Biografia emocional
Robert Castle, fundador da escola de artes dramáticas "IT New York" fala à CULT sobre Hollywood e sobre a arte da interpretação
Eduardo Fonseca
De passagem pelo Rio no início deste mês para uma dar uma oficina de interpretação no Espaço SESC, o diretor de atores norte-americano Robert Castle apresentou sua técnica que mistura memória sensorial e imaginação. Em seu currículo, Castle possui experiência tanto no teatro de vanguarda nova-iorquino, quanto em mega-produções de Hollywood, tendo trabalhado com celebridades como Brooke Shields, Michelle Pfeiffer, Jane Fonda, Sean Penn, Denzel Washington, Mark Wahlberg, entre outros. Em entrevista à CULT, ele falou sobre o desenvolvimento de seu método, inspirado nas teorias do russo Constantin Stanislavski e do polaco Lee Strasberg.
CULT - Você e sua esposa, a atriz Alejandra Orozco, fundaram em 1995 a Internacional Theatre New York (IT New York), uma escola experimental de interpretação. Nela, vocês desenvolveram um método próprio baseado na memória sensorial. Em que medida esta técnica se difere das de Strasberg e Stanislavski?
Robert Castle - Ela está baseada na teoria deles, mas acrescentamos, à memória emotiva, a imaginação. Se antes o ator buscava na memória suas próprias experiências, passamos a desenvolver uma espécie de memória artificial. É como se o ator utilizasse não a sua memória, mas a memória do próprio personagem. Este ganha vida própria, se torna independente, livre. Para tanto, criamos para ele uma história paralela, uma biografia emocional própria, desde as coisas mais simples do dia-a-dia, como afazeres domésticos, às coisas mais intensas.
CULT - Isso deve demandar muito tempo, não?
Sim, demanda muito tempo para se fazer direito. E, uma vez feito, exige também um trabalho para retirar essa biografia emocional do ator. Pois, caso contrário, o ator pode entrar numa loja um dia e, de repente, ter uma sensação em que ele não sabe se é dele mesmo ou se é do personagem. No final de cada trabalho, eu até brinco dizendo que os atores devem se sacudir para tirar a biografia do personagem de si. Caso contrário, ele de repente pode ter cinco casamentos e nem perceber (risos).
CULT - Como surgiu a necessidade de elaborar essa técnica?
Quando era ator em Hollywood, estávamos sempre fazendo cenas violentas, principalmente de matar pessoas, e eu percebi que nunca havia matado ninguém. E, de repente, não me senti seguro para fazer uma cena sem ter onde buscar uma ação convincente. Eu sabia que não era real. Podia ter certa plástica, ser bonito, mas era falso. E eu me perguntava como fazer isso parecer real?

O diretor Rober Castle: "Diria que a força do ator brasileiro é a paixão"
CULT - E o que você fez?
Eu criava uma situação, andava por uma rua, entrava por um corredor, pela porta e não antecipava como o personagem ia reagir. Comecei a forjar a atmosfera do ambiente, desde a temperatura do ar, a condição de meu corpo, o cheiro da arma, o suor... E a partir desses exercícios fui aperfeiçoando a técnica.
CULT - Você já teve contato com alguns atores brasileiros. Como você observa a atuação deles?
Diria que a força do ator brasileiro é a paixão. Os bons se movimentam muito bem. Mas no geral, acho que eles precisam trabalhar uma noção mais moderna de teatro, pois são meio artificiais. Ao mesmo tempo eu percebo que não existe um repertório clássico consolidado no Brasil. Isso resulta numa não-contextualização do clássico, o que invariavelmente acaba num clichê, ficando tudo meio rígido demais.
Outro problema é que, até na vanguarda daqui, como na Europa, os atores parecem bonecos pouco orgânicos. As peças tendem mais para o intelectual e ignoram a humanidade por baixo do conceito, além de ignorarem também a contribuição do ator. O processo todo deveria ser uma descoberta. Nos EUA, nesse sentido, o processo é mais colaborativo.
CULT - Você trabalhou durante algum tempo em Hollywood. Em que medida a indústria terá que se reinventar para manter o seu caráter mercadológico?
Eu ainda acho que Hollywood irá dominar o mercado ainda por um bom tempo. Mas vai ter que fazer mudanças, pois outros lugares estão avançando. Terá que ficar mais humana, deixar a tecnologia um pouco de lado. Porque, hoje, seus filmes parecem feitos para meninos de 12 anos. Essa mudança será resultado do avanço de outros países.
CULT - Que países?
A Dinamarca, com certeza. O México tinha uma indústria muito forte no começo da década, com muita gente boa atuando. O caso do Brasil é interessante, pois parece que consolidou uma produção voltada para filmes sobre favelas e policiais. Parece, no entanto, que essas produções estão eclipsando as demais. Isso é problemático. Manter um equilíbrio é sempre melhor.
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